Mandaram entrar no silo pra desentupir, quebrar a crosta ou “afofar” o grão. A soja cedeu como areia movediça e puxou você — ou puxou seu colega, seu marido, seu filho. Em segundos o grão engole uma pessoa inteira. Quem sai vivo, sai com sequela no pulmão, fratura e um trauma que não passa. Você (ou a família) tem direito. Soterramento com sequela costuma pagar entre R$ 82 mil e R$ 250 mil. Quando o trabalhador morre, o caso costuma passar de R$ 500 mil — dano moral de R$ 60 mil a R$ 120 mil pra cada familiar, mais pensão mensal.

Trabalhador de cooperativa e cerealista na safra. Operador de secador e de moega. Safrista contratado por 3 meses. Ajudante mandado pra dentro do silo “só dar uma mexida”. O Brasil é campeão de soterramento em silo — e quase todos os casos acontecem do mesmo jeito: gente dentro do silo com o sistema de descarga ligado.

Por que a culpa é da empresa, não sua

Entrar em silo é trabalho em espaço confinado — um dos mais controlados pela lei de segurança. A empresa era obrigada a ter:

  • Permissão de entrada por escrito, com avaliação do risco antes de qualquer um entrar
  • Descarga e transportadores DESLIGADOS e travados enquanto tem gente dentro
  • Cinto com corda-guia segurada por alguém de fora
  • Vigia do lado de fora o tempo todo, com meio de chamar socorro
  • Medição do ar dentro do silo (gás de grão mata sem soterrar)
  • Treinamento específico de espaço confinado — não conversa de 5 minutos

Se você entrou sem cinto, sem vigia, com a rosca ligada pra “agilizar” — a culpa é da empresa. Não existe “costume da fazenda” que justifique gente dentro de silo com descarga ligada. Isso é a causa número 1 de morte em silo no país.

Como acontece o soterramento no silo

  • Grão que ceda embaixo dos pés com a descarga ligada — puxa a pessoa como funil
  • Crosta de grão empedrado que desaba quando o trabalhador pisa em cima
  • Parede de grão encostada que desmorona por cima
  • Gás do grão fermentado que derruba o trabalhador antes do soterramento
  • Queda dentro do silo por falta de plataforma e cinto

Direitos de quem sobreviveu

  • Auxílio do INSS pelo acidente (B91) — afastado mais de 15 dias, recebe o benefício acidentário, com FGTS depositado no afastamento inteiro.
  • 1 ano de emprego garantido na volta — não podem te demitir por 12 meses.
  • Indenização pela dor (dano moral) — poucos traumas se comparam a ser engolido vivo pelo grão. A Justiça reconhece o pavor da morte iminente.
  • Indenização pela sequela — pulmão comprometido pelo pó e pela pressão, fraturas, síndrome do pânico: tudo soma.
  • Pensão todo mês — se a sequela reduziu sua capacidade de trabalho, a lei garante pagamento mensal que pode ir até o fim da vida.

Direitos da família quando o trabalhador morre

  • Dano moral por familiar — entre R$ 60 mil e R$ 120 mil pra cada um: esposa ou companheira, cada filho, e em muitos casos pais e irmãos.
  • Pensão mensal pra família — a empresa paga o que ele traria pra casa, em regra até a idade em que ele se aposentaria.
  • FGTS com multa, verbas e seguro — tudo que ele tinha direito vai pra família.
  • Despesas de funeral e hospital — por conta da empresa.

Veja o passo a passo completo da família no post indenização por morte no trabalho. E se ele era safrista sem registro, o direito continua — explicamos em acidente de trabalho sem carteira assinada.

O que NÃO fazer depois do acidente

  • Não diga “a culpa foi minha”. Você entrou no silo porque mandaram. Obedecer ordem de quem devia te proteger nunca é culpa sua.
  • Não aceite acordo sem saber o valor real. A cerealista costuma oferecer uma quantia rápida pra abafar. Soterramento vale muito mais — e caso com morte passa de meio milhão.
  • Não jogue fora nada. Boletim de ocorrência, laudo da perícia, foto do silo: tudo vira prova.
  • Não assine pedido de demissão. Se pressionarem, peça tempo e procure orientação antes de assinar qualquer papel.

E repare numa outra coisa: depois do resgate, a empresa acompanhou seus exames de pulmão? Pagou o psicólogo pro trauma? Ou fingiu que não aconteceu nada? A lei obriga a empresa a acompanhar o seu tratamento até o fim — consulta, fisioterapia, remédio, readaptação. Quando ela te leva pro hospital no dia e depois some, esse abandono é mais um erro dela que aumenta a indenização. Juiz valoriza muito esse ponto.

Veja quanto vale o seu caso

O valor depende da gravidade, da sequela, de quantos dependentes, do salário e do estado. Você não paga nada pra começar — o advogado só recebe se ganhar. Calcule antes de aceitar qualquer acordo da empresa.

O que fazer agora, passo a passo

  1. Cuide da saúde primeiro. Quem foi soterrado precisa de exame de pulmão e acompanhamento — sequela respiratória aparece depois.
  2. Exija a CAT. A empresa tem 24 horas pra emitir. Se não emitir, você ou a família emitem direto no INSS, de graça.
  3. Guarde o boletim de ocorrência e o laudo da perícia — em soterramento com morte, eles sempre existem e são prova forte.
  4. Fotografe e anote. O silo, a falta de cinto e vigia, a rosca ligada. Testemunha de colega vale ouro.
  5. Não assine acordo oferecido no calor do momento, nem você nem a família.
  6. Fique de olho no prazo. Em regra, até 2 anos pra entrar com a ação.

Valores médios por estado

O valor das indenizações varia bastante de um estado pra outro. Veja a tabela de indenização por acidente de trabalho por estado em 2026, com base nos casos reais que acompanhamos.

Perguntas rápidas

Era safrista, contrato de 3 meses. Tenho direito igual? Tem. Contrato de safra dá os mesmos direitos de segurança e a mesma indenização. E se não tinha registro, a Justiça reconhece o vínculo mesmo assim.

Entrei no silo porque o encarregado mandou. Isso me prejudica? Pelo contrário: ordem de entrar sem segurança é prova da culpa da empresa. Você obedeceu quem devia te proteger.

Saí sem fratura, mas não durmo direito desde o acidente. Conta? Conta. Trauma, pânico e insônia depois de quase morrer soterrado são dano real — com laudo de psicólogo ou psiquiatra, entram na indenização.

Quanto tempo a família tem pra agir? Em regra, até 2 anos. Mas quanto antes, mais fácil provar como o acidente aconteceu.


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Dr. Welliton Ventura

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