Você estava costurando e a agulha furou seu dedo. Atravessou a unha, atravessou o osso, quebrou dentro. Ou a máquina prendeu seu dedo. Ou a tesoura industrial cortou. Doeu, sangrou, inchou. O encarregado disse: “põe um esparadrapo e volta pra meta”. Não é esparadrapo. Você se acidentou no trabalho. E você tem direito.
Costureira de confecção que furou o dedo na máquina reta. Operadora de overloque que prendeu a mão. Cortadora que se cortou na tesoura elétrica. Auxiliar que passou a mão onde não devia. Toda mulher (e homem) da indústria têxtil já se machucou ou viu alguém se machucar. E quase ninguém cobra, porque acha que “é normal do serviço”.
Não é normal. Agulha que fura a mão na costura é acidente de trabalho. E paga indenização.
O que conta como acidente na costura
Qualquer machucado na mão por causa da máquina ou da ferramenta de costura conta como acidente. A agulha que fura o dedo. A máquina que prende. A tesoura que corta. O ferro de passar que queima. Até a dor que vai juntando no punho de tanto costurar (a tal da tendinite e do túnel do carpo da costureira) entra como acidente.
E mesmo que pareça pequeno, a agulha pode deixar estrago grande: infeccionar, machucar o nervo do dedo, deixar o dedo torto, tirar a força, deixar formigamento pra sempre. Tudo isso é sequela. Tudo isso paga.
Lesões mais comuns na indústria têxtil
- Agulha atravessando o dedo — a mais comum na máquina reta
- Ponta da agulha quebrada dentro do dedo
- Dedo preso na máquina — esmagamento
- Corte com tesoura ou faca de corte elétrica
- Queimadura no ferro de passar industrial
- Tendinite no punho e no ombro — de tanto repetir o movimento
- Túnel do carpo — formigamento e dor na mão
- Lesão no nervo do dedo — perda de sensibilidade
- Infecção depois do furo — quando não trata direito
Funções que mais sofrem na confecção
- Costureira de máquina reta
- Operadora de overloque e galoneira
- Cortadora (faca de corte elétrica)
- Auxiliar de costura
- Passadeira (ferro industrial)
- Bordadeira (máquina de bordado)
- Costureira de calçado e bolsa (couro)
- Operadora de máquina de etiqueta e botão
Em todas essas funções, a empresa é obrigada a dar máquina com proteção (protetor de dedo na máquina reta), dedeira ou luva certa, treinamento e pausa pra descansar a mão. Se faltou qualquer um, a culpa é dela.
Como provar o acidente no processo
- Atendimento médico — pronto-socorro ou posto no dia. Mesmo se foi “só pra tirar a agulha”. Esse atendimento prova a data.
- CAT — comunicado de acidente. A empresa tem 24h pra emitir. Se não emitir, você emite direto no INSS, grátis.
- Raio-x do dedo — mostra a agulha quebrada ou o osso atingido.
- Testemunhas — colega de bancada que viu, que te socorreu, que sabia que a máquina estava sem proteção.
- Foto da máquina — sem o protetor de dedo, sem a proteção. Tira antes da empresa “consertar”.
- Atestados — todos, mesmo os de 1 dia.
Seus direitos depois do acidente
- Auxílio acidentário (B91) — se ficou afastada mais de 15 dias, o INSS paga benefício acidentário, não comum. A empresa continua depositando FGTS durante o afastamento.
- Estabilidade de 12 meses — quando você voltar do afastamento, a empresa não pode te demitir por 12 meses. Se demitir, paga indenização cheia.
- Indenização por dano moral — pela dor, pelo susto, pelo medo de costurar de novo.
- Indenização por dano material — remédio, fisioterapia, consulta, tudo que você gastou.
- Pensão mensal vitalícia — se ficou sequela permanente (dedo torto, sem força, sem sensibilidade), você recebe uma pensão todo mês até o fim da vida.
O que NÃO fazer depois do acidente
- Não volte pra máquina no mesmo dia “achando que passou”. Furo de agulha infecciona e machuca o nervo. Vá ao médico.
- Não jogue fora atestado, receita, raio-x. Tudo vira prova.
- Não aceite acordo do RH sem advogado. Empresa costuma oferecer R$ 1 mil, R$ 2 mil pra “encerrar o assunto”. Caso real do escritório passou de R$ 70 mil. Vale conferir antes.
- Não assine “pedido de demissão”. Se a empresa pressionar depois do acidente, peça tempo e procure orientação.
Veja quanto vale o seu caso
O valor depende da gravidade, do dedo atingido, do tempo de afastamento, da sequela, do seu salário e do estado. Casos de lesão de mão chegam a até R$ 100 mil. Antes de aceitar qualquer oferta da empresa, calcule.
Valores médios por estado
O valor das indenizações varia bastante de um estado pra outro. Veja a tabela de indenização por acidente de trabalho por estado em 2026, com base nos casos reais que acompanhamos.
Perguntas frequentes
1. A agulha só furou e saiu, fiquei boa rápido. Ainda tenho direito?
Tem. Furo de agulha é acidente mesmo que sare rápido. O importante é ter o atendimento médico do dia. Dano moral pela dor e pelo susto paga mesmo sem sequela.
2. A máquina não tinha proteção de dedo. A culpa é minha?
Não. A empresa é obrigada a colocar proteção na máquina, dar dedeira e treinar você. Se a máquina estava sem proteção, a culpa é da empresa.
3. Minha mão dói de tanto costurar, sem ter tido acidente. Posso cobrar?
Pode. Tendinite e túnel do carpo de tanto repetir o movimento na costura também são acidente de trabalho. CAT precisa ser emitida do mesmo jeito.
4. Trabalho por produção (meta). Isso muda alguma coisa?
Não muda o seu direito. Pelo contrário: meta apertada que força a mão a repetir rápido demais ajuda a provar que a empresa criou o risco.
5. Quanto tempo tenho pra entrar com a ação?
Até 2 anos depois de sair da empresa. Dentro desses 2 anos, dá pra cobrar os últimos 5 anos de direitos.
Sobre o Ventura Advogados
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