O facão escorregou e cortou a perna. A mão bateu no fio da lâmina e abriu fundo. A colhedora puxou o braço perto da esteira. O sol forte, o cansaço, a meta de toneladas pra bater, e num segundo o corte que não para de sangrar no meio do canavial. Você ficou ali, longe de tudo, esperando socorro que demorou. Você não teve culpa. A empresa tinha obrigação de te dar segurança. Você tem direito.

Cortador de cana que abriu a perna com o podão. Trabalhador que perdeu dedo na facada de baixo pra cima. Operador que se feriu na colhedora mecânica. Bituqueiro e carregador machucado no transporte. Todos têm o mesmo direito — e muitos acharam que “foi descuido”, quando faltou treinamento, luva e ferramenta em condição.

Corte de cana é um dos trabalhos mais pesados e perigosos do Brasil. E acidente nesse serviço paga indenização.

Por que a culpa é da empresa, não sua

Trabalhar com facão, podão e máquina pesada no calor é serviço de alto risco. A empresa (a usina, o fornecedor de cana ou o gato que te contratou) era obrigada a proteger você. Ela tinha que ter dado:

  • Luva de raspa e perneira de proteção contra o corte
  • Facão e podão afiados, com cabo firme e em condição de uso
  • Treinamento de como cortar sem se ferir antes de mandar você pro campo
  • Água, sombra e pausa pra você não trabalhar exausto e desidratado
  • Transporte rápido e socorro perto da lavoura
  • Manutenção e proteção nas partes cortantes da colhedora

Se faltou qualquer um desses — e na lavoura quase sempre falta — a culpa é da empresa. Não importa se “você é experiente no corte”, se “todo mundo trabalha assim” ou se a meta de toneladas te empurrou. Quem responde pela sua segurança é quem te pôs pra trabalhar.

Funções que mais sofrem corte na cana

  • Cortador de cana com facão e podão
  • Operador de colhedora mecânica de cana
  • Trabalhador que faz a bituca e o destopo
  • Carregador e transportador de feixe de cana
  • Tratorista e ajudante de plantio
  • Trabalhador de afiação de ferramenta
  • Bóia-fria e diarista de safra
  • Trabalhador rural de usina e fornecedor de cana

O que fazer agora, logo depois do corte

  1. Procure o pronto-socorro na hora. Corte fundo de facão atinge nervo, tendão e veia. Faça todos os exames e guarde o atendimento.
  2. Exija a CAT. É o comunicado de acidente. A empresa tem 24 horas pra emitir. Se não emitir, você emite direto no INSS, de graça.
  3. Peça foto do lugar e da ferramenta. Facão sem condição, falta de luva e perneira, máquina sem proteção. Tira a foto antes de “sumir tudo”.
  4. Guarde tudo. Atestado, receita, radiografia, laudo, conta de remédio, recibo de transporte.
  5. Anote os colegas que viram. Quem socorreu, quem sabia que faltava equipamento, quem ouviu o gato ou o fiscal mandar cortar mais rápido.

Seus direitos depois do corte

  • Auxílio acidentário (B91) — se ficou afastado mais de 15 dias, o INSS paga o benefício acidentário. A empresa continua depositando o FGTS durante todo o afastamento.
  • Estabilidade de 12 meses — quando voltar do afastamento, a empresa não pode te demitir por 12 meses. Se demitir, paga indenização cheia.
  • Indenização por dano moral — pela dor, pelo medo, pelos meses parado, pela vida que mudou.
  • Indenização por dano material — gastos com remédio, cirurgia, transporte, e a diferença de salário que você deixou de ganhar.
  • Pensão mensal vitalícia — se ficou sequela (perdeu força na mão, perdeu dedo, não dobra mais o braço, não corta mais), você recebe pensão todo mês até o fim da vida.

O que NÃO fazer depois do corte

  • Não diga “eu fui descuidado”. Era a empresa que tinha que te dar luva, perneira, ferramenta boa e treinamento. A culpa é dela.
  • Não aceite acordo do gato ou da usina sem advogado. Costumam oferecer R$ 3 mil, R$ 5 mil pra “ajudar”. Caso real do escritório com corte grave chegou perto de R$ 100 mil.
  • Não volte ao corte antes da alta. Tendão e nervo mal curados viram sequela pra vida toda.
  • Não jogue fora nada. Radiografia, laudo, atestado, foto: tudo vira prova.

Veja quanto vale o seu caso

O valor depende da gravidade do corte, da sequela, do tempo de afastamento, do seu salário e do estado. Antes de aceitar qualquer oferta, calcule.

Valores médios por estado

O valor das indenizações varia bastante de um estado pra outro. Veja a tabela de indenização por acidente de trabalho por estado em 2026, com base nos casos reais que acompanhamos.

Perguntas frequentes

1. Fui contratado pelo gato, sem carteira assinada. Tenho direito?

Tem. Mesmo sem carteira assinada, dá pra provar o vínculo e cobrar a indenização — da usina e de quem te contratou. Trabalhar sem registro não tira o seu direito.

2. O facão era meu, eu que levei. Perco o direito?

Não. A empresa é obrigada a fornecer a ferramenta em condição e o equipamento de proteção. Se deixou você trabalhar com o que tinha, a culpa é dela.

3. Foi durante a safra, era trabalho temporário. Conta?

Conta. Trabalho de safra, temporário ou diária também é trabalho protegido. Se se machucou cortando cana, tem direito do mesmo jeito.

4. Já tive alta mas a mão ficou sem força. Ainda dá?

Dá. Alta do INSS não é cura completa. Perda de força, dedo travado e dificuldade de pegar peso são sequela permanente e pagam pensão.

5. Quanto tempo tenho pra entrar com a ação?

Até 2 anos depois de sair da empresa. Dentro desses 2 anos, dá pra cobrar os últimos 5 anos de direitos.


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