O óleo da fritadeira espirrou. A panela de 50 litros virou. O gás acumulou e deu aquele estouro na hora de acender a chapa. Em segundos, o braço, o peito ou o rosto queimou — e a cozinha nem parou, porque o almoço “tinha que sair”. Você tem direito. Queimadura grave costuma pagar entre R$ 80 mil e R$ 250 mil de indenização, mais o benefício do acidente (código 91) e 1 ano de emprego garantido. Queimadura menor também paga — menos, mas paga.
Cozinheiro de restaurante, de hotel, de hospital. Chapeiro de lanchonete. Auxiliar de cozinha industrial que serve 2 mil marmitas. Merendeira de escola. Atendente de fast food na fritadeira. Todos têm o mesmo direito — e cozinha é um dos lugares que mais queima trabalhador no Brasil, quase sempre por pressa, piso engordurado e equipamento mal cuidado.
Por que a culpa é do restaurante, não sua
Cozinha industrial é ambiente de risco conhecido. A empresa era obrigada a ter:
- Avental, luva térmica e manga de proteção pra quem mexe com fritadeira e forno
- Fritadeira e fogão com manutenção, sem termostato quebrado nem mangueira de gás ressecada
- Piso limpo e antiderrapante — piso engordurado derruba gente com panela quente na mão
- Espaço pra circular: cozinha apertada faz um esbarrar no outro com óleo quente
- Treinamento pra lidar com óleo quente, gás e chama
- Equipe completa — cozinheiro sozinho no rush faz tudo correndo e se queima
Se faltou luva térmica, se a mangueira do gás era velha, se o piso vivia engordurado, se você trabalhava dobrado por falta de gente — a culpa é da empresa. Não importa se “cozinha é assim mesmo”. Não é. Segurança em cozinha existe e é obrigação do patrão.
Queimaduras de cozinha que mais acontecem
- Óleo quente da fritadeira que espirra ou entorna
- Panela grande que vira ao ser carregada sem ajuda
- Estouro de gás ao acender chapa, forno ou boca do fogão
- Vapor do caldeirão ou da panela de pressão industrial
- Queda com panela quente por causa do piso engordurado
- Contato com chapa, forno ou assadeira sem luva térmica
Seus direitos depois da queimadura
- Auxílio do INSS pelo acidente (B91) — afastado mais de 15 dias, recebe o benefício acidentário, com FGTS depositado durante todo o afastamento.
- 1 ano de emprego garantido na volta — não podem te demitir por 12 meses. Veja o post sobre estabilidade depois do acidente de trabalho.
- Indenização pela dor (dano moral) — queimadura dói por semanas, com curativo diário. A Justiça reconhece esse sofrimento.
- Indenização pela marca que ficou (dano estético) — mancha, cicatriz e pele repuxada no braço ou no rosto pagam valor separado.
- Tratamento pago pela empresa — pomada, curativo, cirurgia plástica reparadora se precisar.
- Pensão todo mês — se a queimadura limitou movimento ou te tirou da profissão, a lei garante pagamento mensal que pode ir até o fim da vida.
Queimadura grave costuma ficar entre R$ 80 mil e R$ 250 mil. Queimadura menor, com marca permanente, costuma ficar na casa das dezenas de milhares. E muita cozinha contrata sem registro: sem carteira assinada o direito continua o mesmo — veja o post acidente de trabalho sem carteira assinada.
Dá medo de processar? Entenda por que você pode
Restaurante não pode te marcar na praça nem impedir você de arrumar outra cozinha — isso é proibido e gera mais indenização. E você não paga nada pra começar: o advogado só recebe se você ganhar.
O que NÃO fazer depois do acidente
- Não diga “a culpa foi minha”. Mesmo que a panela tenha virado na sua mão, era o restaurante que tinha que dar luva térmica, piso seco e gente suficiente na cozinha.
- Não aceite acordo sem saber o valor real. O patrão costuma pagar a farmácia e achar que está quites. Queimadura com marca vale muito mais que nota de farmácia.
- Não jogue fora nada. Atestado, foto da queimadura desde o primeiro dia, nota de pomada: tudo vira prova.
- Não assine pedido de demissão. Se pressionarem, peça tempo e procure orientação antes de assinar qualquer papel.
E repare numa outra coisa: depois da queimadura, o restaurante acompanhou seu tratamento? Pagou o curativo? Perguntou como você estava? A lei obriga a empresa a acompanhar o seu tratamento até o fim — consulta, fisioterapia, remédio, readaptação. Quando ela te leva pro hospital no dia e depois some, esse abandono é mais um erro dela que aumenta a indenização. Juiz valoriza muito esse ponto.
Veja quanto vale o seu caso
O valor depende do grau da queimadura, do tamanho da marca, de onde ela ficou (rosto e braço valem mais), do tempo parado, do salário e do estado. Antes de aceitar qualquer acordo do patrão, calcule.
O que fazer agora, passo a passo
- Vá pro hospital, não trate com pasta de dente. Queimadura de óleo é funda e infecciona fácil.
- Exija a CAT. É o papel do acidente. A empresa tem 24 horas pra emitir. Se não emitir, você emite direto no INSS, de graça.
- Fotografe a queimadura desde o primeiro dia e a cozinha: a fritadeira, o piso engordurado, a mangueira do gás.
- Guarde os papéis. Atestado, receita, nota de pomada e curativo, comprovante das idas ao posto.
- Anote quem viu. O colega que socorreu, quem sabia do termostato quebrado, quem também já se queimou lá.
- Fique de olho no prazo. Você tem até 2 anos depois de sair do restaurante pra entrar com a ação.
Valores médios por estado
O valor das indenizações varia bastante de um estado pra outro. Veja a tabela de indenização por acidente de trabalho por estado em 2026, com base nos casos reais que acompanhamos.
Perguntas rápidas
Foi só uma queimadura no braço, já sarou. Vale a pena? Se ficou mancha ou cicatriz, vale. Marca permanente paga dano estético além do dano moral, mesmo com a ferida curada.
Trabalhava de freela na cozinha, sem registro. Tenho direito? Tem. A Justiça olha a realidade: se você trabalhava lá com frequência, reconhece o vínculo. E a falta de registro pesa contra o patrão.
O restaurante pagou a farmácia e acha que está quites. Está? Não. Pagar o curativo é o mínimo. Dano moral, dano estético e pensão são direitos separados que o patrão não quita com nota de farmácia.
Quanto tempo tenho pra entrar com a ação? Até 2 anos depois de sair do restaurante. Dentro desses 2 anos, dá pra cobrar os últimos 5 anos de direitos.
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