A empresa que te levou no hospital e depois sumiu cometeu o segundo erro dela. O primeiro foi o acidente. O segundo é o abandono: parar de atender, negar remédio, cortar plano de saúde. Esse descaso não fica de graça. Ele vira prova no processo e costuma aumentar a indenização.

“Depois de um mês ninguém da firma atende meu telefone.” “A empresa nega até o plano de saúde.” “O encarregado orientou a calar a boca.” Essas frases chegam pra gente toda semana. No dia do acidente, todo mundo correu. Uma semana depois, você está em casa, com dor, pagando remédio do próprio bolso, e o telefone da firma não toca mais. A sensação é de ter sido jogado fora.

Eu sou o Welliton Ventura, ultraespecialista em acidente de trabalho há 15 anos. Em mais de 3.000 casos, com mais de R$ 41 milhões recuperados para trabalhadores, vi esse roteiro se repetir muitas vezes. E vi também como ele pesa contra a empresa quando chega na frente do juiz.

“Quem se machuca trabalhando não pode se machucar de novo na hora de buscar o direito.” — Dr. Welliton Ventura, advogado ultraespecialista em acidente de trabalho (OAB/PA 18.667-B)

O que a empresa tinha que fazer depois do acidente?

A obrigação da empresa não termina na porta do pronto-socorro. Depois do acidente, ela devia:

  • Emitir a CAT, o papel que registra o acidente no INSS.
  • Prestar socorro e transporte até o atendimento.
  • Pagar os primeiros 15 dias de afastamento. Depois disso, quem paga é o INSS.
  • Manter o plano de saúde durante o afastamento pelo acidente.
  • Acompanhar o tratamento: remédio, fisioterapia, exames e a sua volta ao serviço.

Quando ela faz só o primeiro socorro e depois desaparece, está deixando de cumprir uma obrigação. E obrigação que não foi cumprida vira pedido no processo.

Por que o sumiço da empresa aumenta a indenização?

Porque o juiz não olha só o acidente. Ele olha também como a empresa se comportou depois. Uma coisa é a empresa que errou e correu para ajudar. Outra é a que errou e virou as costas. O abandono mostra descaso com a sua vida, e o descaso pesa no dano moral. É um ponto que a Justiça do Trabalho valoriza muito.

E você não está sozinho nessa. Segundo o Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (SmartLab, do Ministério Público do Trabalho com a OIT), foram concedidos 2,6 milhões de afastamentos por acidente entre 2012 e 2023. Muita gente passou por esse período de casa, com dor, esperando um telefonema que nunca veio.

O encarregado mandou eu ficar quieto. E agora?

“Fala que foi em casa.” “Não precisa abrir CAT.” “Se reclamar, vai pra rua.” Isso é pressão, e pressão também é prova. Se veio por mensagem, guarde. Se foi de boca, anote o dia, a hora, quem falou e quem estava perto. Esconder acidente é coisa séria, e quem tenta esconder costuma ter motivo. Se a CAT não saiu, você mesmo pode fazer: veja o que fazer quando a empresa se recusou a emitir a CAT.

Como provar que a empresa sumiu?

Abandono se prova com o silêncio registrado. Comece hoje:

  1. Tire print da lista de ligações para o RH, para o encarregado e para o chefe que ninguém atendeu.
  2. Tire print das mensagens no zap que ficaram sem resposta ou só foram visualizadas.
  3. Guarde toda nota de farmácia, recibo de fisioterapia, consulta e exame que você pagou.
  4. Guarde comprovante de ônibus, Uber ou gasolina para ir ao médico.
  5. Peça por escrito a negativa do plano de saúde, se ele foi cortado.
  6. Anote o nome de colegas que sabem como a empresa te tratou depois.

Paguei remédio e fisioterapia do meu bolso. Recebo de volta?

Pode receber. Tudo o que você gastou por causa do acidente e que a empresa devia ter pago entra no processo como reembolso, além da indenização. Por isso cada nota fiscal importa, até a da pomada e a do ônibus. Explicamos isso com detalhe no post sobre reembolso de despesas médicas pelo empregador. E o tratamento que você ainda vai precisar, como cirurgia nova ou mais fisioterapia, também pode entrar na conta.

E se a empresa sumiu de vez, fechou ou trocou de nome?

Tem empresa que some de verdade: fecha as portas, muda de CNPJ, passa para outro dono. Isso não apaga a dívida com você. Os sócios, a empresa nova que ficou com o negócio ou a empresa grande que contratava o serviço podem ter que responder. Cada caso tem um caminho, e é por isso que vale olhar com cuidado antes de desistir.

O que NÃO fazer quando a empresa some

  • Não peça demissão de raiva. Você perde a proteção do emprego e ajuda a empresa.
  • Não suma também. Se a empresa te chamar por carta ou telegrama, responda. Entenda o risco no post sobre abandono de emprego no afastamento.
  • Não apague conversas, nem as que te deixam com raiva.
  • Não assine papel nem acordo que o RH mandar sem entender o que está assinando.
  • Não pare o tratamento porque a empresa não paga. Use o SUS e guarde o prontuário.

Quer saber quanto a Justiça tem pago? Nossa página de valores por estado mostra os valores fixados em cada canto do Brasil, com dado público.

Perguntas frequentes

A empresa cortou meu plano de saúde no afastamento. Pode? No afastamento pelo acidente, o plano deve ser mantido. Cortar na hora em que você mais precisa pode gerar indenização.

A empresa me levou ao hospital. Isso não mostra que ela ajudou? Mostra só o primeiro dia. O que pesa é o que veio depois: tratamento, remédio, acompanhamento e respeito na volta.

Ainda trabalho lá. Posso processar mesmo assim? Pode. Você não precisa sair da empresa para buscar seus direitos, e ela não pode te punir por isso.

Faz tempo que aconteceu. Ainda vale? Muitos casos antigos seguem vivos, mas caso antigo precisa de documento (CAT, laudo, prontuário ou papel do INSS). Confira o seu com um especialista.

Preciso pagar para começar? Não. O advogado só recebe se você ganhar.


Sobre o Ventura Advogados

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