Você estava passando a peça na tupia, empurrando a madeira na destopadeira ou cortando na serra circular. A madeira rebateu, a fresa pegou, a mão escorregou — e em um segundo o dedo foi. Marceneiro conhece a cena: quase todo colega mais velho tem um dedo mais curto. E o dono da marcenaria disse: “faz parte do ofício”. Não faz. Você tem direito. Corte ou amputação na mão de marceneiro costuma pagar entre R$ 38 mil e R$ 82 mil de indenização, mais o benefício do acidente (código 91) e 1 ano de emprego garantido.

Marceneiro na tupia sem guia de proteção. Ajudante na destopadeira sem treinamento. Operador da serra circular de bancada sem coifa. Movelero na esquadrejadeira, na desengrossadeira, na desempenadeira. Todos têm o mesmo direito — e marcenaria é um dos lugares que mais tira dedo de trabalhador no Brasil.

Por que a culpa é da marcenaria, não sua

Máquina de madeira é tratada com rigor pela norma de segurança de máquinas (a NR-12). A marcenaria era obrigada a ter:

  • Coifa de proteção sobre o disco da serra circular
  • Guia e proteção na tupia — a fresa nunca pode ficar exposta pra mão
  • Empurrador (o “pau de empurrar”) pra peça pequena — mão nunca perto da lâmina
  • Dispositivo contra rebote da madeira (cutelo divisor na serra)
  • Botão de emergência ao alcance e freio que para o disco rápido
  • Treinamento de verdade em cada máquina — não “vai olhando como se faz”

Se a serra estava sem coifa (quase toda marcenaria tira), se a tupia não tinha proteção, se não existia empurrador — a culpa é da empresa. Não importa se você tinha 20 anos de profissão. Experiência não substitui proteção: a máquina segura protege até no dia de distração.

Acidentes de marcenaria que mais acontecem

  • Dedo na fresa da tupia ao passar peça pequena sem guia
  • Mão no disco da destopadeira ou da serra circular sem coifa
  • Rebote da madeira que arrasta a mão pra lâmina
  • Dedos na desempenadeira ao aplainar peça curta sem empurrador
  • Mão puxada pelos rolos da desengrossadeira
  • Estilhaço de madeira ou de serra no olho

Seus direitos depois do acidente

  • Auxílio do INSS pelo acidente (B91) — afastado mais de 15 dias, recebe o benefício acidentário, com FGTS depositado durante todo o afastamento.
  • 1 ano de emprego garantido na volta — não podem te demitir por 12 meses. Veja o post sobre estabilidade depois do acidente de trabalho.
  • Indenização pela dor (dano moral) — pelo susto, pela cirurgia, pelo medo de voltar pra máquina.
  • Indenização pela marca que ficou (dano estético) — dedo a menos, dedo torto, cicatriz na mão: paga separado.
  • Pensão todo mês — se a mão perdeu força, movimento ou dedos, a lei garante pagamento mensal que pode ir até o fim da vida.

Amputação de dedo costuma ficar entre R$ 38 mil e R$ 82 mil — e mais de um dedo, ou o polegar (que segura a ferramenta), passa disso. Confira a tabela de valores de indenização por dedo pra ver o seu caso. A Justiça já condenou madeireira em caso igual, com indenização de centenas de milhares de reais.

E se a mão não voltar a ter a precisão do ofício — marceneiro que não segura mais o formão, não passa mais peça na tupia — a Justiça reconhece a perda do ofício: pensão mensal até morrer, além da indenização.

Dá medo de processar? Entenda por que você pode

A marcenaria não pode te marcar no ramo — isso é proibido e gera mais indenização. Você não paga nada pra começar: o advogado só recebe se você ganhar. E processar não mexe no benefício — veja o post posso processar a empresa mesmo recebendo benefício do INSS.

O que NÃO fazer depois do acidente

  • Não diga “a culpa foi minha”. Mesmo com 20 anos de profissão, a máquina tinha que ter proteção pro dia da distração. A culpa de tirar a coifa e a guia é da marcenaria.
  • Não aceite acordo sem saber o valor real. A marcenaria costuma oferecer R$ 3 mil, R$ 5 mil pra “ajudar”. Dedo amputado vale dez vezes isso ou mais.
  • Não jogue fora nada. Radiografia, laudo da cirurgia, foto da serra sem coifa: tudo vira prova.
  • Não assine pedido de demissão. Se pressionarem, peça tempo e procure orientação antes de assinar qualquer papel.

E repare numa outra coisa: depois do acidente, a marcenaria acompanhou sua cirurgia? Pagou a fisioterapia da mão? Ou só perguntou quando você voltava? A lei obriga a empresa a acompanhar o seu tratamento até o fim — consulta, fisioterapia, remédio, readaptação. Quando ela te leva pro hospital no dia e depois some, esse abandono é mais um erro dela que aumenta a indenização. Juiz valoriza muito esse ponto.

Veja quanto vale o seu caso

O valor depende de qual dedo foi, de quantos, da sequela na mão, do tempo parado, do seu salário e do estado. Antes de aceitar qualquer oferta do patrão, calcule.

O que fazer agora, passo a passo

  1. Procure o pronto-socorro na hora. Se houve amputação, leve a parte do dedo no gelo — às vezes dá pra reimplantar.
  2. Exija a CAT. É o papel do acidente. A marcenaria tem 24 horas pra emitir. Se não emitir, você emite direto no INSS, de graça.
  3. Fotografe a máquina. A serra sem coifa, a tupia sem guia, a falta do empurrador — antes que instalem tudo depois.
  4. Guarde os papéis. Radiografia, laudo da cirurgia, receita, conta de remédio.
  5. Anote quem viu. O colega que socorreu, quem também trabalha sem proteção, quem já perdeu dedo lá antes de você.
  6. Fique de olho no prazo. Você tem até 2 anos depois de sair da marcenaria pra entrar com a ação.

Valores médios por estado

O valor das indenizações varia bastante de um estado pra outro. Veja a tabela de indenização por acidente de trabalho por estado em 2026, com base nos casos reais que acompanhamos.

Perguntas rápidas

Já teve outro marceneiro que perdeu dedo na mesma máquina. Isso ajuda? Ajuda muito. Acidente repetido na mesma máquina prova que a empresa sabia do risco e não consertou. A indenização aumenta.

Sou marceneiro há 20 anos, foi a primeira vez. A culpa não foi minha? Não. A máquina tinha que ter proteção justamente pro dia da distração. Quem trabalha todo dia com lâmina uma hora vacila — por isso a lei exige a proteção, não a perfeição.

Perdi só a ponta do dedo mínimo. Vale a pena? Vale. Qualquer amputação é sequela permanente com dano estético. E na mão de marceneiro, cada dedo conta pro ofício.

Quanto tempo tenho pra entrar com a ação? Até 2 anos depois de sair da marcenaria. Dentro desses 2 anos, dá pra cobrar os últimos 5 anos de direitos.


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Dr. Welliton Ventura

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