A panela virou. O molde tinha umidade e o metal explodiu. A escória espirrou no vazamento. Metal líquido a mais de mil graus não queima como água quente: ele gruda, atravessa a roupa comum e derrete a pele até o osso. Você ficou com o braço, o peito ou a perna marcada pra sempre. E a fundição disse que “respingar faz parte”. Não faz. Você tem direito. Queimadura grave por metal líquido costuma pagar entre R$ 80 mil e R$ 250 mil de indenização, mais o benefício do acidente (código 91) e 1 ano de emprego garantido.

Forneiro no vazamento da corrida. Operador de panela de alumínio, ferro ou aço. Ajudante que trabalha ao lado do forno de indução. Rebarbador atingido pela peça ainda incandescente. Todos têm o mesmo direito — e fundição é um dos ambientes mais perigosos da indústria brasileira.

Por que a culpa é da fundição, não sua

Trabalho com metal líquido tem proteção obrigatória por lei. A empresa tinha que dar e manter:

  • Roupa aluminizada ou de material contra calor radiante e respingo — não uniforme comum de brim
  • Perneira, avental, luva e bota específicos pra fundição
  • Protetor facial e óculos contra respingo
  • Molde e panela secos — umidade com metal líquido explode, e a empresa sabe disso
  • Panela e cadinho com manutenção, sem trinca nem mecanismo falhando
  • Distância de segurança e barreira pra quem não é do vazamento

Se você trabalhava de uniforme comum, se o molde estava úmido, se a panela vazava — a culpa é da empresa. Respingo de metal era risco conhecido e controlável. Quando queima alguém, é porque economizaram na proteção.

Acidentes de fundição que mais acontecem

  • Explosão de metal ao encontrar umidade no molde ou na sucata
  • Respingo no vazamento da panela pro molde
  • Panela ou cadinho que trinca e vaza metal líquido
  • Escória que espirra na limpeza do forno
  • Peça incandescente que cai ou encosta no trabalhador
  • Calor do forno que causa desmaio e queda

Seus direitos depois da queimadura

  • Auxílio do INSS pelo acidente (B91) — afastado mais de 15 dias, recebe o benefício acidentário, com FGTS depositado durante todo o afastamento.
  • 1 ano de emprego garantido na volta — não podem te demitir por 12 meses. Veja o post sobre estabilidade depois do acidente de trabalho.
  • Indenização pela dor (dano moral) — queimadura de metal é das dores mais brutais, com meses de curativo e enxerto. A Justiça reconhece.
  • Indenização pela marca que ficou (dano estético) — cicatriz de queimadura profunda é extensa e definitiva: paga valor próprio, e alto.
  • Tratamento pago pela empresa — enxerto, cirurgia plástica reparadora, malha compressiva, fisioterapia: a empresa pode ser obrigada a custear tudo, inclusive cirurgias futuras.
  • Pensão todo mês — se a pele repuxada limitou movimento ou a queimadura te tirou da função, a lei garante pagamento mensal que pode ir até o fim da vida.

Queimadura grave costuma ficar entre R$ 80 mil e R$ 250 mil. A Justiça já condenou fundição em caso igual. E se a sequela te tirou do ofício de forneiro, entra ainda a pensão até morrer pela perda do ofício.

Dá medo de processar? Entenda por que você pode

A empresa não pode te marcar na indústria da região — isso é proibido e gera mais indenização. Você não paga nada pra começar: o advogado só recebe se você ganhar. E processar não mexe no benefício — veja o post posso processar a empresa mesmo recebendo benefício do INSS.

O que NÃO fazer depois do acidente

  • Não diga “a culpa foi minha”. Mesmo que você estivesse perto do vazamento, era a fundição que tinha que dar a roupa aluminizada e manter a panela sem trinca.
  • Não aceite acordo sem saber o valor real. Em queimadura grave a empresa costuma oferecer R$ 10 mil, R$ 20 mil. Cicatriz de metal líquido vale muito mais.
  • Não jogue fora nada. O uniforme derretido, o laudo do centro de queimados, a foto da ferida em cada fase: tudo vira prova.
  • Não assine pedido de demissão. Se pressionarem, peça tempo e procure orientação antes de assinar qualquer papel.

E repare numa outra coisa: depois da queimadura, a fundição pagou o enxerto? A malha compressiva? A cirurgia reparadora que ainda falta? A lei obriga a empresa a acompanhar o seu tratamento até o fim — consulta, fisioterapia, remédio, readaptação. Quando ela te leva pro hospital no dia e depois some, esse abandono é mais um erro dela que aumenta a indenização. Juiz valoriza muito esse ponto.

Veja quanto vale o seu caso

O valor depende do grau da queimadura, do tamanho e do lugar da cicatriz, do tempo parado, do seu salário e do estado. Antes de aceitar qualquer acordo do RH, calcule.

O que fazer agora, passo a passo

  1. Hospital na hora. Queimadura de metal é sempre profunda — precisa de centro de queimados, não de curativo simples.
  2. Exija a CAT. É o papel do acidente. A empresa tem 24 horas pra emitir. Se não emitir, você emite direto no INSS, de graça.
  3. Guarde o uniforme queimado e fotografe. Roupa comum derretida é a prova de que faltou a vestimenta certa.
  4. Fotografe a queimadura desde o início e durante todo o tratamento — enxerto, curativo, cicatriz.
  5. Anote quem viu. Quem socorreu, quem sabia da panela trincada, quem também trabalhava sem roupa aluminizada.
  6. Fique de olho no prazo. Você tem até 2 anos depois de sair da fundição pra entrar com a ação.

Valores médios por estado

O valor das indenizações varia bastante de um estado pra outro. Veja a tabela de indenização por acidente de trabalho por estado em 2026, com base nos casos reais que acompanhamos.

Perguntas rápidas

A empresa deu o uniforme, mas era de brim comum. Conta contra ela? Conta. Pra metal líquido a lei exige vestimenta específica contra calor e respingo. Uniforme comum é o mesmo que nada.

A queimadura foi na perna, ninguém vê. O dano estético vale menos? Vale um pouco menos que no rosto, mas paga do mesmo jeito. Cicatriz é sua, à vista ou não — e a dor e a limitação contam igual.

Preciso de mais uma cirurgia de enxerto no futuro. Quem paga? A empresa pode ser condenada a custear as cirurgias futuras. Por isso é importante deixar isso registrado no processo.

Quanto tempo tenho pra entrar com a ação? Até 2 anos depois de sair da fundição. Dentro desses 2 anos, dá pra cobrar os últimos 5 anos de direitos.


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Dr. Welliton Ventura

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